domingo, 8 de outubro de 2017

Canto para a lua nova




riso enlarguecido, por Sergia A.


Ela cantava para sua pequena em noites frias, acomodando seus corpos aquecidos sob as cobertas. Era preciso proteger a pele macia  e o brilho do olho do avanço do vento noturno, impetuoso, que corta e cega. 

O tempo se repete. Não cansa de ser ontem. À pequena crescida a repetição se faz em canto. Como se no tamborilar dos dedos, na cadência das palavras, os céus ouvissem o ecoar de um pranto:

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Brava gente brasileira



A minha alma tá armada
E apontada para a cara
Do sossego
Pois paz sem voz, Paz sem voz 
Não é paz é medo

[Marcelo Yuka, in Minha alma (a paz que não quero)]





Amarelo sobre fundo azul, por Sergia A.



Uma das minhas meninas quando adolescente amava bandas de rock, pop-rock e sei lá mais o que, como a maioria das meninas da sua idade. Aos domingos, quando se sentia livre da agenda estressante que eu (uma mãe severa) lhe impunha durante a semana se trancava no quarto, ligava o som em volume alto e ficava pulando em cima da cama repetindo a plenos pulmões um refrão do Rapa: 
"Me abrace e me dê um beijo/ Faça um filho comigo/ Mas não me deixe sentar na poltrona no dia de domingo,/ Domingo/ Procurando novas drogas de aluguel/ Nesse vídeo coagido/ É pela paz que eu não quero seguir admitindo/ É pela paz que eu não quero, seguir/ É pela paz que eu não quero, seguir/ É pela paz que eu não quero, seguir/ Admitindo."  
Minha cabeça analítica e seduzida facilmente por veios poéticos, do lado de fora, ouvia e tentava decifrar aqueles recados enigmáticos que definiam uma paz não desejada.

Isto me veio à lembrança nesta manhã de nuvens esparsas em um céu de setembro. É feriado nacional. Minha imaginação está agora povoada de famílias brasileiras sentadas nos sofás se drogando via TV, jornais, revistas ou portais da grande mídia na internet. Drogas adormecedoras que injetam em nossa mente a hipocrisia, como se quisessem testar a nossa tão festejada índole pacífica. Insuflados por ela fomos capazes de derrubar uma presidenta por um crime fiscal. Um golpe de estado em que muitos nem sequer se deram conta que aquilo significava um atentado à nossa frágil democracia. Repetia-se em doses diárias que as instituições estavam funcionando.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Com olhos de Caetano




I -  Sobre a vida secreta das pipas



A pipa, Sergia A.

não é sol de dezembro
não tenho bolsos ou mãos
ainda assim
caminho contra o vento...
por que não?




II - Sobre a vida secreta das flores

domingo, 20 de agosto de 2017

Máquina do tempo



A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz.
O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja
irreversivelmente, no momento em que é reconhecido.

(Walter Benjamim, in Sobre o conceito da história - 1940
tradução de Sergio Paulo Rouanet)



portal do tempo, por Sergia A.



Entrar em uma cidade medieval, atravessando suas muralhas e  torres, é se permitir ser tragada pelo tempo. Não como em um túnel cuja direção seja o passado, mas como em um caleidoscópio que por meio dos seus efeitos visuais nos faz ir e voltar no mesmo instante. Ou, talvez, nos permita viver outro tempo com olhos de hoje. 
dois tempos, por Sergia A.

Foi assim que fui apresentada a Nürnberg. De cara me jogaram no Castelo Imperial Nuremberg com seus pesados portões de madeira e degraus de pedra que datam do século XI, para em seguida ter acesso à vista panorâmica da cidade pulsante em pleno século XXI.
Depois descer ladeiras para me descobrir no século XVI diante da Albrecht Dürer Haus e da imponente estátua daquele que foi considerado o artista mais importante do Renascimento Nórdico.
E a ordem era seguir por dois dias sem se deixar sucumbir à tontura das imagens nos espelhos.