sexta-feira, 22 de junho de 2018

A Literatura entra em campo



brasil mergulhado em azul, por Sergia A.




Minha ausência por aqui tem razões fortes e gratificantes. Um voo surpreendente que minhas palavras tomaram, por esses dias, até encontrar pouso no site Crônicas da Copa


Sobre o projeto:

"Crônicas da Copa é um projeto que vai acontecer durante a Copa do Mundo da Rússia. Todos os dias, serão postadas crônicas sobre as partidas, sobre a torcida e os acontecimentos da competição. Mais do que análises dos fatos, interpretações pessoais com olhares poéticos, humorados e críticos. Aquilo que ninguém viu e também o que todos viram mas ninguém reparou. A paixão do futebol e o prazer da leitura em campo novamente, por 31 dias."


Estou agradecida e feliz por fazer parte desse time de Autores

Se sentirem minha falta por aqui, é só correr lá... tem muita coisa boa!
A página "Outras publicações", deste blog,  tem link direto para as crônicas publicadas por mim. Um click apenas. Boa leitura!

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Sobre angústia, lógica e futebol



a flor o espinho, por Sergia A.


Sabe aquelas horas nervosas que antecedem o jogo? então, perfeitas para visitar palavras e suscitar imagens. Pode parecer ilógico, mas é assim que dou vazão à angústia que o futebol me provoca de quatro em quatro anos. Sim, preciso confessar a heresia que é me afastar de algo tão presente na vida brasileira: não torço por nenhum time de futebol. Local ou nacional. Nunca vi um jogo em estádio e nem sei quanto pesa uma bola de couro. Aliás, nem sei se o couro ainda é matéria prima de uma bola nesse tempo de altas performances guiadas pela tecnologia. No entanto, de quatro em quatro anos visto as cores e sinto um aperto no peito na hora do hino. 

O que me salva são as palavras e as viagens que elas me proporcionam. Um exemplo, para que as coisas tomem um rumo mais concreto: antes do jogo começar visito o país adversário, sem sair do sofá. Se já tive a oportunidade de pisar naquele chão, busco palavras e imagens na memória ou na bagagem. Se não, procuro os poetas. Aqui vai outra confissão: tenho a mania de achar que um lugar é também o que se escreve. Do mesmo modo que o espetáculo proporcionado pelo futebol passa a ser um lugar. E nessa lógica meio sem lógica tomo asas. Não pensem que é tarefa fácil. Se o adversário vem do centro a que todos os olhares se voltam e se copiam, expressando-se em línguas cheias de poder como o francês, o inglês, o alemão, o espanhol, o italiano, está no papo. E não me tomem por poliglota. Está no papo porque as traduções abundam. E quando o danado vem do mundo periférico, de culturas invisíveis ou apagadas ainda que falantes oficiais das mesmas línguas? Respiramos fundo e mergulhamos na escuridão, até encontrar um verso que ampare um comentário todo prosa, disfarçado de naturalidade. As rédeas do coração devidamente retesadas tomam um alívio até serem completamente afrouxadas com um grito na hora do gol. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Cerimônia de Transição II


Minha mão tem manchas,
pintas marrons como ovinhos de codorna.


[Adélia Prado, Avós, Miserere p.31]



outono



Um dia corrido, e decepcionante pelos resultados não alcançados, despejou sobre o seu corpo todo o peso dos setenta anos. Os ossos pediam cama. A ausência de hormônios exigia banho frio. Deixou que a água percorresse suas curvas, livremente, seguindo o percurso do óleo de menta e alecrim para intensificar o poder calmante e de hidratação. Roupas leves, confortáveis, lençóis limpos e suavemente perfumados. O sono viria a galope, sem dúvida. Veio. Bem acompanhado de imagens do outono em uma terra distante e uma melancólica canção, capazes de invadir a alma até fazê-la serenar.

Acordou intrigada com o poder daquelas cores sobre uma mente moldada a poucos graus do Equador, em terra sem estações. A diversidade de tons que amarelam o verde e douram o vermelho persistindo na manhã seguinte, a nitidez enchendo olhos em plena claridade do dia. O ar de tristeza parecia não afligir. Ao contrário, dava mais encantamento. Entretanto, algo a inquietava. Talvez isso viesse da literatura, dos filmes, das narrativas que formatam o imaginário, ponderou. Ou, quem sabe, surgissem de traços genéticos em camadas mais profundas. O certo é que, tal qual os que sentem na pele as transformações da paisagem, também ela o sentia dentro do peito naquele instante.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Oficina de microcontos II: Inverno



Ela quer um amor simples
feito café da manhã

[Zack Magiezi, notas sobre ela]




janela congelada, por Sergia A.



                   O café! (manchas na janela).
                   ...esfriou.