domingo, 10 de dezembro de 2017

Demolição




adobe, por Sergia A.



Nas paredes o marrom do adobe escorreu cedendo à insistência das chuvas, como o sangue amarelado das mariposas. Trincas se fizeram brechas na fragilidade da arcaica estrutura revestida de austeridade, olhares severos e não ditos.

Já não cabiam reparos ao anúncio de inevitável rompimento. Restou no chão sobre escombros o arrastar dos passos em fuga, fatigados de peso e imobilidade. Carregando nas cicatrizes leveza e movimento.


sábado, 11 de novembro de 2017

Montagem do dia



assento à janela, por Sergia A.




Tomo posse de cantos, como herdeira do que em sonho foi meu. Planto sementes como garantia. Cedo à insistência do sol. Do ben-te-vi e do café rompendo os dias. Desperto a languidez do transe que cedo me encanta.

Na janela namoro uma brisa acanhada, aspirando ingenuidade. Antes que a boca do poema salte das páginas e, por inteiro, me devore.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Entre o ódio e o medo: a esperança



Nos abrimos para que homens e mulheres escutem
E nos dizemos: Olha, não tenhas medo, sê cândido e anuncia corpo e alma,
Demora-te um pouco e depois segue, sê generoso, prudente, puro, magnético,
E o que tu exalas poderá voltar, como voltam as estações
E poderá ser pleno, como as estações.


[Walt Whitman in Por esses Estados, tradução de Ramsés Ramos]
[Folhas da Relva p.23]



templo à luz, por Sergia A.



Por esses tempos sombrios, frequentemente me envolvo em "tretas". Não aprendi a calar diante do que fere meus olhos ou ouvidos. E depois trago a convicção de que se a internet e as redes sociais deram voz aos imbecis, como disse Umberto Eco, é preciso que vozes sensatas apareçam para equilibrar os ruídos e alimentar a esperança.

Foi assim que ao defender o estado democrático e criticar uma intervenção policial autoritária em uma universidade, ouvi um questionamento sobre "o ódio do pessoal da esquerda a uma farda"  e os "calafrios" diante de armas. Não podendo responder pelos outros mas apenas por mim, respondi que não sou movida pelo ódio. E, não pude evitar que daí surgissem duas ideias, quase que de imediato. A primeira: se até aquele momento eu não tinha me assumido como "alguém de esquerda", e a defesa da democracia contra o arbítrio assim me identificava, pontos para a Esquerda. A segunda: esta seria uma boa oportunidade para deixar de lado a insinuação de covardia contida no questionamento, e examinar o meu medo de armas. Este sim, um sentimento verdadeiro. Neste ponto ele estava certo. Tenho razões e argumentos fortes contra o uso indiscriminado de armas, principalmente quando são usadas com o claro intuito de intimidação como fora o caso que deu início à discussão.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Dois de novembro


por fernandas, yarlas e camillas 



goiabeira sobre fundo cinza, por Sergia A.



oh! Tristeresina
dos mortos que somos vivos
dos vivos que fomos mortos 
das fogueiras que não se apagam 
fagulhas sopradas por ventos que retornam 

oh! Tristeresina
de flores manchadas pela imponência do sol
acinzenta-se obscurecida em sombras 
de muitos rostos emudecidos